Amarrotadas
estão as minhas lembranças, mas o cheiro que sinto não é de naftalina, é do
aroma dos cadernos e dos lápis de cores novos, depositados dentro da pasta preta
enorme que levava morro acima. Dois passos para cima, um para baixo; uma hora
para percorrer pouco menos de um km que separava minha casa da escola. A
criançada vestida de saia ou short azul marinho de tergal conforme fosse menina
ou menino, a blusa não fazia diferença, era igual, no bolso o distintivo que
identificava o Major Lage, homem distinto que dava nome à escola estadual em
que ingressei com seis anos e só me despedi aos 10 com muito pesar, com o
sentimento de que outros iriam ocupar minha carteira e meu lugar no coração de D. Dulce.
Primeiro
dia de aula e conheci a chamada. De início, o prazer e a novidade ao escutar
meu nome na voz macia e doce de Dulce ocultou o fato que não demorou a saltar
aos ouvidos. Entre envergonhada e confusa esperava por minha vez, a última.
Comecei a perguntar pelo critério que teria me colocado ali naquela posição tão
desprivilegiada. Permaneci sem resposta até que a solução chegou
inesperadamente na figura gorducha de Vilma que acabara de ingressar na turma. Foi então, que feliz, pude escutar, após o
meu nome, a professora chamar por Vilma.
Minha alegria durou o tempo de reorganizar a lista dos alunos segundo
uma ordem que eu desconhecia. Na segunda feira, a surpresa, eu era novamente a
última. Não tive dúvida, eu era mesmo preterida por aquela doce figura.
Resignada com a posição, estudei muito, pois imaginava que assim conseguiria
melhor colocação, até que soube da existência de uma tal ordem do alfabeto,
mais justa , dizem , que a ordem do afeto. Nessa ordem o y ocupava a última
posição a que fui condenada por levar o nome da prima que minha mãe quis
homenagear. Aí, já era tarde, já havia me transformado numa ótima aluna.
A
segunda lição veio quando tentei colocar em palavras o cheiro de frutas maduras
do quintal de minha casa. Dulce leu,
gostou e sugeriu o “aroma” ali onde eu sentia o “cheiro”, disse que ficava mais
bonito. Fiquei perplexa. Pensei que fosse nome de fruta, entre tantas que no
quintal meu pai plantara não havia essa, mas concordei, entendi que quando se
escreve, mais vale a beleza que a realidade.
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