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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O livro dos segredos


Embora muitos leem pouco, é difícil encontrar alguém que assuma sem constrangimentos que não gosta de ler, assim como admite não gostar de jiló ou de dobradinha. Esse tema é tratado com mais reservas como as fantasias sexuais, no muito, quando solicitado a dar sua opinião, o falso leitor inventa umas desculpas, do tipo ando sem tempo, sem dinheiro, sem paciência, enfim cem desculpas.  
Por falta de condições ideais, sejam elas climáticas, orgânicas ou alfabéticas, os livros permanecem à espera de tempos melhores, de pé nas estantes das bibliotecas, livrarias e editoras.
Mas toda regra tem exceção, e assim foi que o ex-marido de Gabriela disse com todas as letras, acentos e pontos que odeia ler: _ “Quem quiser se esconder de mim, esconda-se dentro de um livro”. Sinceridade à parte, com esta dica, ele anuncia que os livros são um abrigo seguro quando se quer guardar um segredo.
Essa imagem não é nova, foi muitas vezes explorada no cinema: em algum lugar no meio da estante, existe uma caixa se fazendo passar por livro. Em seu interior, o mistério de quem confia que dentro de um livro o segredo estará a salvo da curiosidade daqueles que comungam do mesmo espaço.
Outras vezes, sem disfarce, entre as próprias páginas dos livros se escondem cartas de amor, certidões, documentos, fortunas e segredos jamais revelados. Os livros mostram que ali, à vista e ao alcance de todos, pode-se ter o melhor e mais seguro esconderijo. Desse modo, meio errante, o livro cumpre sua existência e toda casa que se preze tem lá sua biblioteca.
Foi assim que Gabriela, ao saber de uma promoção de livros, deixou tudo o que estava a fazer para comprar os mais belos exemplares, em quantidade que preenchesse as lacunas de sua recém instalada estante. Com autoridade de boa consumidora, Gabriela chegou cedo à livraria como quem entra numa loja popular do centro da cidade em dia de queima de estoque, disposta a pechinchar.
Sua estante ficaria linda com exemplares de aproximadamente um palmo e meio. Deparou-se com um belíssimo exemplar de capa dura, papel couché, em tons de azul, medindo os exatos 27cm, perfeito para o canto superior direito ao lado de dois outros exemplares de tamanho e cores afins.   O vendedor, percebendo o entusiasmo daquela que lhe pareceu uma ávida leitora diante de Foucault, sugeriu outros nomes: Derrida, Althusser, Alain Badiou, Gatarri, Edgar Morin e uma infinidade de nomes oxitonamente pronunciados, de modo a deixar Gabriela entrever a origem francesa daqueles nomes.
Feliz com sua sagacidade pediu para vê-los e verificando que as edições não preenchiam seus requisitos, recusou-os, sugerindo elegantemente que lhe trouxesse uns alemães: um a um, o vendedor desfilava diante de seus olhos perplexos Thomas Mann, Bertolt Brecht,  Nietzsche,  Hölderlin etc...
Recusando todos e aumentando a perplexidade do vendedor, que tentava em vão advinhar-lhe o gosto  literário, Gabriela confessou: _ prefiro os latinos, belos e altos como você.
O vendedor não teve dificuldades para encontrar exemplares que atendessem aos requisitos daquela que lhe pareceu a mais verdadeira das mulheres.
Mais tarde, só pensava nela, aproveitando um descuido do caixa copiou o endereço que ela deixara no verso do cheque, enviando-lhe uma carta de amor. A fala do ex-marido, como uma bússola, reorientou  seus passos e o compasso do seu coração.

sábado, 6 de novembro de 2010

Essas amigas que não dizem aonde vão...

Algumas pessoas queridas inspiraram a criação dos personagens que habitam esse blog, e o que é mais sério, elas sabem disso. No entanto, a passagem da vida real para o universo das letras comporta uma mudança de estatuto, como se passassem do estado sólido para o gasoso, essas pessoas experimentam uma sublimação que lhes confere muito mais movimento e liberdade. Mal alcançam o branco do papel agem como se azul e infinito ele fosse.
Como personagens, elas acabam ganhando vida própria, traindo tanto a intenção do autor quanto daquela que lhe serviu de matriz, de inspiração.  O ser da realidade fica estupefato ao ler as proezas e a ousadia do personagem, pelo qual estranhamente se sente responsável.  Acompanhando o rumo da história sente calafrios e temores pelo que vai vir.
Assim testemunha a amiga, que virou Izabela ao ler suas histórias no blog.
Tanto ela se mostrou incomodada com a visão que os leitores fariam dela ao fazer parte de uma trama em que a ficção dividiu espaço com situações da realidade, como também a Marcele sentiu certo desconforto ao ver seu sorriso aparecer com a cor pink, o que lhe pareceu extremamente de mal gosto e  extravagante. Outro exemplo desse ping pong entre o personagem e o ser que lhe inspira pode ser  evidenciado quando uma amiga chegou a temer que o marido pudesse lhe responsabilizar pelo que Suzane aprontasse nas histórias do blog. Coincidência ou não, outra amiga, identificada com Aninha, tomou logo a iniciativa de participar de uma atividade física quando leu no texto sobre Itabira, o quanto esta andava cansada e desanimada.  
Gabriela ainda não se manifestou, mesmo porque a pessoa que lhe serve de inspiração também já se aventurou pelo universo das palavras e deve bem saber como nem o autor, nem a realidade podem nada diante da velocidade e força das palavras.
O que as personagens Aninha, Marcela, Isabela, Gabriela, Amanda e Suzane possam fazer nesse estado etéreo nem a quem escreve as histórias compete controlar. Ao caírem nas páginas do blog, ganham autonomia, já não pedem permissão. Se deixam levar pela cadeia significante, sem lenço nem documento, sem medo dos riscos e da morte, se aventuram surpreendendo a todos. Eu fico a torcer para que tenham um final feliz...