Nesse mundo regido pela batuta do capital, impera um mandamento em que todos devem fazer não aquilo que gostam _ o que soa hoje como conto da carochinha, mas sim o que dá dinheiro. O mundo está infestado de gente que escolhe ter como profissão qualquer coisa, desde que dê dinheiro.
Não sei amigas se o que digo é mais uma dessas esquisitices que me faz sentir estranha no mundo, mas, assim como os capitalistas, preocupo-me em investir, mas o investimento confiável e seguro para mim é em gente: gente simples, sofisticada, bonita, feia, pobre, rica, culta, de pouca leitura, mas sensível. A sensibilidade salva qualquer um dos limites humanos da pequenez, faz da vida algo que merece ser chamada de humana.
Tomo de um tio das antigas um exemplo do que é investir em gente. Sensibilíssimo , ao ouvir do filho que não poderia comparecer a um evento de família porque tinha que trabalhar, perguntou-lhe quanto custava sua hora, alegando que as compraria. Sem graça, mas não menos sensível, o primo estava lá.
O que lamento, é que essa característica tem definhado na proporção inversa ao crescimento do poder e domínio do dinheiro. Dinheiro alimenta status, mas não alimenta a alma; quando a alma está faminta não há vida que valha a pena. Alma desnutrida e minguada, desidrata a vida.
O ser humano regido por essa orquestra financeira torna-se desabitado, vazio.
Então pais e mães, quero dividir com vocês a minha preocupação. Acho que os valores mudaram e mesmo aqueles que pensam como eu, ou seja, que o investimento em gente é o mais seguro, têm vacilado em transmitir esses valores aos filhos.
Escutei de uma jovem ao se dirigir a sua mãe a expressão desse conflito; ela disse: como pode a senhora tão inteligente ter sido tão burra. O que a jovem considera a burrice da mãe é o fato de esta, apesar de ter tido vários resultados positivos no campo intelectual, não ter escolhido uma profissão que lhe garantisse uma boa dose de consumo - doses e mais doses até a embriaguez.
Para essa jovem e para tantos outros a escolha profissional é guiada pela remuneração.
Tomando a prostituição como paradigma do fazer qualquer coisa em troca do dinheiro, vejo um tempo sombrio em que “a prostituição do dom” se alastra como modo seguro de pensar e apostar no futuro. Desprezam-se as aptidões, prazeres, histórias e identificações na hora de escolher uma profissão em nome do dinheiro.
Alguns pais zelam para que os dons artísticos dos filhos permaneçam adormecidos, temendo que a descoberta destes possa extraviar o filho dos caminhos mais curtos em direção a um bom salário. A arte chega a ser uma ameaça.
Muitos jovens têm apostado na medicina como um dos caminhos para uma pretensa estabilidade financeira (o que muitos afirmam ser um engano). Estabilidade é um eufemismo por trás do qual se esconde a ânsia pelo poder financeiro.
Nesse sentido, é emblemático como desde a preparação para uma profissão que pretende zelar pela vida, já se evidencia os equívocos de uma busca guiada por outros interesses.
Uma jovem, notadamente sensível, relata como a disputa nos cursinhos por uma vaga nos cursos de medicina é desumana. O esforço para fazer uma amizade só é comparado ao de Sísifo, a cada novo dia recomeça. Quando consegue trocar algumas palavras amigáveis com o colega ao lado, no dia seguinte é surpreendida com a indiferença do vizinho, que não raro procura sentar-se em outro lugar.
A jovem relata também recursos e estratégias para derrotar o colega desde já, deixá-lo em condições desiguais. Assim, ela observa a colega que havia faltado de aula pedir à amiga o caderno emprestado, escuta-a dizer mentirosa e descaradamente que também havia faltado à aula, resposta reiterada por tantos quantos foram solicitados. Sem falar nos tratamentos estapafúrdios de alguns professores que ali estão como animadores de platéia, que deixam a ética longe, imbuídos que estão em manter acordados e atentos centenas de jovens “prostituídos”, para no final do ano engrossar a lista dos primeiros, segundos e terceiros lugares em medicina, direito e engenharia.
Embora esse desabafo já contou 721 palavras ( ferramenta do Word ), careço ainda de pedir desculpas aos engenheiros, médicos e advogados sensíveis, já que tomei suas profissões como maus exemplos. A estes os meus parabéns, pois o que pode ser melhor do que o encontro entre o dom, o prazer no trabalho, e uma remuneração compatível?
