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terça-feira, 28 de setembro de 2010

A saga da idade...


Há muita coisa velha nesse mundo que está muito bem, inclusive gente.
O hábito quer nos convencer de que o jovem é a beleza, a energia, a saúde e a promessa,  assim como o velho é em tudo o oposto.
Mas não é sempre assim, não foi assim com pianista e maestro João Carlos Martins que diz, aos 70 anos de idade, que nunca foi tão feliz na vida quanto agora, não foi assim com minha mãe que disse aos 70 anos se sentir mais jovem do que aos 40, não está sendo assim comigo que me sinto melhor depois dos quarenta do que antes deles.
É difícil admitir isso e mais difícil é convencer os outros.
Quando já se tem alguma idade e quer expressar um sentimento de vida, de alegria, de paz, de estar bem consigo e com os outros não existe outro recurso lingüístico a não ser reverenciar a juventude. Dizer: sinto-me jovem!
Trata-se de significados clandestinos da palavra jovem e velho, em que ao primeiro está atrelado tudo o que é bom e ao segundo reservado tudo o que não presta, o resto, o lixo. Tanto é assim que ninguém pensaria de um jovem que declarasse sentir-se velho que ele pudesse com isso estar expressando algo de bom que lhe tivesse a acontecer. Pelo contrário, entenderíamos que assim ele manifesta seu desânimo diante da vida. 
No meu caso, a expressão “sentir- me jovem” não expressa a verdade do sentimento, pois quando jovem não experimentava nada parecido.  
Como disse, a mim não seria possível sentir-me naquele tempo como me sinto agora, pois nem mesmo os valores que sustentam minha apreciação do mundo atualmente existiam lá. Pensando bem, talvez existissem, mas encobertos por outros valores que se sobrepunham e impunham.
A beleza, nem mesmo ela me seduz. Reafirmo, estou bem melhor hoje, nem mesmo vendo as fotos daquele tempo, rosto lisinho, vacilo. Lá, vejo uma estranha e esquisita figura na qual não me reconheço.
Com a idade se aprende a conhecer seus imperfeitos e seus nem tão perfeitos assim traços físicos, conscientiza-se sobre o que lhe cai bem e o que resvala para o ridículo. Aprende-se que, com a moda assim como com os animais ferozes, não se deve ignorar mas também não convém  criar muita afinidade.  O conforto foi o prêmio por selar essa boa amizade. Lá, vestia-me segundo manda a moda, aqui desvisto-me dessa obrigação, sigo apreciando a criatividade dos estilistas. 
Hoje eu me cuido, passo meus cremes, limpo, tonifico e hidrato, mas não só o rosto, ou  o corpo; repito o processo na vida, com os amigos, com a família e com o trabalho.
O corpo perfeito com suas medidas, pesos, cores e estaturas pareciam ser a chave da felicidade, até que você desconfia de que esses conceitos são temporários, de repente alguém decide mudar tudo e lá vai você, que sonhava fazer uma plástica para reduzir os seios, economizar para colocar uma prótese de silicone. Ali onde tinha uma montanha de repente se apresenta uma depressão. 
Declarei um acordo de paz com meu corpo. Pensar  numa plástica de barriga, soa como um atentado contra a antiga e silenciosa testemunha de algumas boas horas de descontração diante da mesa. Se ela se insinuar muito, não permito, faço minhas caminhadas e alguns exercícios, estamos de acordo em coexistirmos.
Hoje vejo mais beleza no mundo, nas pessoas, nas coisas, talvez , porque na juventude, só a procurasse em mim mesma.
É claro que a idade não são apenas flores, velha metáfora, também têm seus espinhos, e confesso que este escrito, entre todos, tem sido o de conclusão mais difícil e indecisa, pois começo a duvidar de que a idade seja tão boa quanto anunciei a pouco.  As dores nas costas me lembram de que isso é ônus da idade, assim como o são  os óculos de leitura que acabo de esquecer no andar de baixo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Coisa da maior importância




Entre o sorriso amarelo e a gargalhada podemos identificar uma variedade imensa de risos. Embora não tenham sido catalogados, essas modalidades estão dispersas na cultura. Os risos ganharam vários adjetivos conforme os seus aspectos sonoros, conforme a intenção daquele que ri, ou o esforço e o envolvimento muscular no ato de rir.  Tratar desse assunto exige de início que se crie uma palavra para nomear aquele que ri. Quem fala é o falante, quem escreve é o escritor. E quem ri : risor? Risante? Risador? Sim, talvez seja.
Pois então, existem risadores que podem ser definidos pela risada, um traço forte de personalidade até então muito desconsiderado.
O papai Noel é identificado mais pelo sonoro HOU... HOU... HOU do que por suas roupas vermelhas, que em climas tropicais já encontrou outras versões. Sua risada é invariável, sempre aquele velho som rouco que parece sair do fundo de uma caverna. As bruxas, por sua vez, também tem no riso o mais significativo traço identificatório, a famosa gargalhada cujo som agudo, estridente com fortes trepidações se prolonga no tempo até desaparecer, sem forças.
Nem Papai Noel nem as bruxas tem suas existências confirmadas, mas basta observar as pessoas em encontros informais para  verificar que o que falo é da maior importância.
Nessas ocasiões, todos sabem que podem e devem rir muito. O que para alguns é um alívio, para outros é motivo de preocupação e martírio. Enquanto uns tem o “riso frouxo”_ vivem rindo, mesmo em situações inadequadas, como Marcele no velório do pai de uma amiga, outras não o fazem nem em condições propícias sem um dispêndio de energia, quase um sacrifício.
Destes vem aquela risada que parece mais o barulho das rodas de um trem arrastando-se sobre os trilhos no instante de uma freada. Produz um som que raspa a garganta, o famoso “riso forçado”. Embora a pessoa se esforce, a trepidação que produz é pequena, pois uma risada para ser considerada boa deve sacudir o risador da ponta dos pés até o fio dos cabelos, o corpo todo participa, sai lágrimas nos olhos, às vezes, perde-se até o controle da urina.
A relação do riso com a morte é outra questão fundamental. São inúmeros os testemunhos daqueles que quase morreram de tanto rir. Talvez essa confissão assuste e justifique o medo que alguns apresentam de rir, não ousam mais do que um pequeno movimento dos lábios, em que nem as maças do rosto participam, ficam intactas, impassíveis, são os donos de um “sorriso artificial”.
Estranha nomeação a de “sorriso amarelo”, talvez uma referência aos dentes que, por não receber luz, apresentam-se um pouco encardidos, já que chama-se de amarelo ao meio riso, aquele que o indivíduo dá quando entende que deve rir em vez de chorar.   
Coloco-me a tarefa de classificar os risos das amigas ampliando assim as possibilidades de classifica-los.
Nesse sentido, valho-me das cores.  Assim, o Riso vermelho, um pouco irado, seria o tipo de Suzana; o Riso azul celeste, discreto e delicado, seria o da Aninha; o riso rosa Pink, estravagante e exagerado, o de Marcele; o riso berinjela, comedido e sempre chic, o da Izabela;  para Amanda combinaria o riso verde bandeira e nem precisaria dizer porquê e, enfim, caberia a  Gabriela o riso branquíssimo, porque se não for assim ela não ri. Diferenças à parte, temos em comum que rimos todas com o corpo e com a alma.  

sábado, 18 de setembro de 2010

Bolo de maçã com passas



Essa receita foi servida no “Chá das cinco”, foi muito comentada e apreciada, por isso, compartilhamos com vocês, seguidoras do blog.
Coloque um avental, deixe as preocupações de lado, calce um chinelo bem confortável que você merece, ligue para duas ou três amigas e convide-as para estar com você.  Ria, ria muito com o corpo e com a alma...

Ingredientes:
3 xícaras de farinha de trigo
2 xícaras de açúcar
3 ovos
1 colher (sopa) de canela em pó
1 colher (sopa) fermento em pó
200 gr de margarina
4 maçãs picadinhas  com casca
200 gramas de uvas passas sem semente

Bata (na batedeira) os ovos e o açúcar até obter uma mistura bem homogênea. Acrescente a canela. Aos poucos, polvilhe a farinha e o fermento. À parte, derreta a margarina ao fogo, acrescentando as passas. Despeje essa mistura na massa e acrescente as maças picadas. Coloque a massa numa forma redonda média untada e leve ao forno por 30 minutos, aproximadamente.
Obs: Depois de bater o açúcar e os ovos, dispense a batedeira. Misture os demais ingredientes com uma colher de madeira.
Ligue o forno e deixe-o aquecer por uns minutinhos, em temperatura média, antes de colocar o bolo para assar.

Esteja onde você estiver:

Bom apetite!
Bon appetit!
Enjoy your meal !
Buen provecho!

E aqui esgotam-se os meus recursos...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Cinco lenços ou o chá das cinco.





 


Nunca pensei que fosse curtir tanto o avanço dos anos, que além de marcas no rosto, algumas dores no corpo, trouxe novas e boas amizades. Chegamos à idade do “Chá das cinco”, embora hoje pense que “Chá das cinco” não tem idade, é mais uma questão de merecimento.
Izabela e Marcele começaram fazendo o chá, uma finesse trazida da Turquia, presente da cunhada que Izabela não cansou de agradecer. Aos poucos, foram chegando Suzana, Aninha, Gabriela e finalmente Amanda.
Além do chá turco e o bule canadense, presente da amiga de Marcele, que esperava ansioso por uma oportunidade de se colocar à mesa, as iguarias eram todas bem mineiras. Quanto às conversas, prosseguimos mais um pouco em nosso passeio pelo mundo, mundo da moda.
Que Paris é a capital mundial da moda, berço de grifes famosas, todas nós sabiamos. Que uma bolsa Louis Vuitton, que uma sandália Chanel, que um vestido Dior, que uma blusinha Guy Laroche, que uma lingerie Passionata custam o olho da cara, todas estavam cientes, que pouquíssimas mulheres nesse nosso Brasil tem acesso a esses caprichos, ninguém ignorava, que a maioria dos maridos acham que esses bens são desnecessários todas suspeitavam.
O que pouca gente sabia é que entre essas marcas, a Hermés, criada em 1837 por um fabricante de selas, que vendia cintos de couro, botas e luvas é atualmente a marca de um dos mais famosos lenços que a Europa já viu. Sua fama foi fortalecida pela princesa de Mônaco, Grace Kelly, que se apresentou em público usando um desses lenços como tipóia para o braço. Assim um lenço Hermés tornou-se símbolo de sofisticação e elegância. O custo desse luxo? Ninguém ousa pronunciar. Cabe aos leitores curiosos investigar, a internet é um grande e discreto aliado. Confesso, não resisti, já fiz a minha pesquisa e digo que estou estupefata.    
Até esse encontro, eu desconhecia o luxo representado pela posse desse adereço. Izabela, chiquérrima, chegou ao nosso chá carregando uma sacola também chiquérrima de onde retirara, diante dos olhares perplexos das amigas, os souvenires que o marido lhe trouxera de uma viagem pela Europa. Retirara, delicadamente, uma caixa laranja na qual jazia um lenço com imagens do pólo norte acompanhado de outra caixa menor. Nessa caixinha, organizadas como cartas de um baralho, várias fotografias exibiam possibilidades diferentes de uso do lenço com as instruções no verso. Izabela entregou à Gabriela uma carta selecionada do baralho, que, por sua vez, procurou desempenhar da melhor forma a tarefa que lhe coube. 
Izabela, orgulhosa por ter sido alvo da atenção e generosidade do marido, nem se deu conta de que o modelito escolhido exigia não um, mas cinco lenços.
Após um súbito sentimento plebeu, marcado pela falta de cinco lenços, deu um gole no chá turco de maça verde, transformou-se  numa rainha. Sem perder a pose exclamou:
_ Que são cinco lenços comparados ao nosso chá das cinco!


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

AMIGAS passeiam pelo Museu de Território Caminhos drummondianos.

Casa onde morou Drummond
Izabela, cansada que estava de tentar explicar sua paixão pela terra de Drummond, sugeriu às amigas que fossem com ela experimentar o chão e o cheiro do minério. De Itabira, elas conheciam apenas as encostas vermelhas de onde fora arrancadas as verdes vestes para extirpar o minério escondido em suas entranhas. Lá, a terra sangra, apesar disso, Izabela insistia que não se trata apenas de um retrato na parede.


Assim se deu que nos encontramos em Itabira, no fim de agosto, numa tarde que não cai, pois em Itabira a tarde “pousa na sombra da gameleira”. Duas horas depois do almoço e Aninha já sentia as exigências do seu estômago, queria algo doce, e bem ali diante “dos vasos de azul-vaidade, contra o azul do céu” determinou que parássemos para que ela degustasse alguns doces. Diante dela a inscrição: “e agora José?” E agora que a festa acabou, o que fazer com todas essas calorias excedentes, reclamava ela. A resposta veio em seguida, Izabela propôs que andássemos todo o percurso delimitado pelo Museu de Território Caminhos drummondianos.

Entre os resmungos de Aninha, algumas contrapropostas de Gabriela e o entusiasmo de Suzana e Amanda começamos por dar a volta ao largo do Batistinha, seguimos pela rua Tiradentes, pelo Beco do calvário, uma paradinha no Paredão e seguimos até onde descansa o Inglês invisível, depois pela rua do bongue, onde nos deparamos com a placa poema que entusiasmadas e em uníssono declamamos como colegiais.

Soubemos que estávamos diante dos restos escourados da casa do velho santeiro Alfredo Duval com sua “ânsia artesanal de perdurar” vencida pelo descaso do poder público; continuamos subindo, desafiando nosso fôlego. Avistamos a casa do proprietário do primeiro carro a subir as ladeiras de Itabira. Chegamos ao hipocampo itabirano, região responsável pela memória dessa cidade. Ali descansa os mortos e os criminosos, cantam e tocam os homens e rezam as mulheres. Num pequeno espaço reúnem o cemitério, a cadeia, o zoológico, a banda de música e a igrejinha do Rosário. O coração começa a bater mais forte, Izabela não sabe se pelo esforço da subida ou se pela emoção, muita vida desceu e subiu ladeira.

Para alívio de Aninha, começamos a descer, chegamos à antiga morada de Drummond de onde prosseguimos ladeira abaixo até nova escalada, pois Izabela não negociava a subida da rua Santana até o Colégio Nsa Senhora das Dores, foi lá que aprendeu a namorar.

Depois de uma passada pelo Pico do amor e do Memorial, Izabela chamou para o café. Torcemos por um café preto, gostoso e bom que encontramos na casa de sua mãe que esperava ansiosa por nos conhecer.

De Itabira, trouxemos prendas diversas que oferecemos aos maridos, filhos e em especial à Michele que, recentemente operada, só foi liberada para caminhar insuficientes 15 minutos por dia. Entre eles, esse site que possibilita que os menos dispostos nos acompanhe pelos caminhos drummondianos. http://www.vivaitabira.com.br/viva-drummond/Caminhos-Drummondianos.php

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Para não dizer que não falei das flores...

Marcele fez o convite para irmos a uma apresentação musical de uns amigos. Antes que todas nós só tivéssemos olhos e ouvidos para a banda, Aninha rogou a si o direito de falar. Seu entusiamo era tamanho que nem se deu conta de que Suzana estava na pior, intimidada que se encontrava pelo marido que, irado, se despediu dela com a condição de optar entre ele e o show. Aninha continuava a falar, sem interrupções, vangloriando-se de sua dedicação e confiança, gabando-se de que tinha a certeza de uma recompensa após anos de cuidados diários, às vezes até mais de uma vez ao dia. Entreolhamo-nos assustadas, teria ela enlouquecido? Ninguém foi capaz de adivinhar, mas imaginem que tudo isso se devia a uma flor, uma unicazinha...
Antes que Amanda concluísse sua observação sobre a incoerência entre o tamanho do entusiasmo e o fato a ele associado, Aninha, ainda com muito fôlego, pos-se a justificar dizendo se tratar da família Orchidaceae, de espécie rara.
Todas tentamos introduzir novos assuntos, Izabela perguntou se havíamos decidido sobre os candidatos para a próxima eleição, Gabriela tentou puxar o assunto para um filme que acabara de assistir, Amanda quis falar de sua viagem ao interior de Minas, mas nenhum assunto emplacava e víamo-nos novamente indefesas sob a mira das informações orquidófilas de Aninha. Ela tecia comentários sobre a durabilidade, sobre as cores e os tamanhos das flores, complementava as informações orgulhando-se do capricho de suas plantas: “gostam de vento, adoram adubos, sol só pela manhã, pouca água”, etc...
Suzana interveio dizendo que se tivesse tempo dedicaria a si, “flor que merece esse cuidado e, no entanto, nunca encontrou um jardineiro fiel”. Aninha, ofendida, acusa-a de falta de sensibilidade. Quando a discussão parecia se desviar por terrenos mais acidentados, fomos interrompidas pelo som do seu celular. Do outro lado, uma vozinha doce, manhosa e obediente, ansiosa por falar, contava entusiasmada tudo o que tinha feito, como quem supera as espectativas, acrescenta que preparara para a tia uma surpresa : sabe aquela flor mamãe, arranquei para a tia...
Nesse instante, nada mais se escutava, ao não ser os acordes de “Para não dizer que não falei das flores...”, musica com que a banda deu início ao show.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Amigas: Aninha, Marcela, Izabela, Gabriela, Amanda e Suzana.


A ideia desse blog surgiu a partir de um encontro que tivemos no dia 19 de agosto no bar em frente ao trabalho de Izabela, Marcele e Aninha, após um dia de grande tensão. Gabriela havia nos advertido que o “céu de agosto estava negro” e, por isso, deveríamos cuidar-nos. Enquanto ela tomava seus banhos de descarrego, nós decidimos nos encontrar com mais frequência, falar bobagens e rir que é nossa maneira de descarregar. Suzana e Amanda juntaram-se ao grupo. Gabriela, infelizmente, havia se despedido pouco antes para ir se preparar para uma festa no fim de semana. Festa que prometia!


Chope gelado, porção de carne de sol com mandioca e a vista da Lagoa foi o cardápio e o cenário da conversa que se seguiu. Suzana chegou dizendo que seu casamento andava de mal a pior, o marido a tinha colocado entre a cruz e a espada e esperava dela uma decisão que, por sua vez, coincidiria com a sua própria: voltar para casa ou procurar um advogado. Uma boa prosa catalisada pelo chope gelado, fez com que ela ficasse muito à vontade para consultar as amigas.

Marcele argumentou, um pouco enfastiada com esse papo de casada, que a historia é sempre a mesma, enquanto nos queixávamos do marido e dos filhos, ela se queixava da falta deles. Acrescenta: o tédio é a rotina, ela não dedicaria mais o seu tempo a queixar-se, senão a providenciar situações novas que a tirasse do tédio.

Aninha, para horror de Amanda e radicalizando a proposta de Marcele, lançou logo a sugestão de trocarmos de maridos eventualmente. Do alto de nossa condição de mulheres modernas, nos colocamos a discutir a proposta da amiga, começou com Marcele querendo saber se teria direito a essa troca, já que não tinha marido a oferecer. Antes que obtivesse a resposta, a proposta foi descartada quase que por unanimidade com o argumento de que seria um horror ter o marido testado pela colega. Imaginem, após uma noite com o marido da outra, dizer para a esposa: -Você tem razão de estar tão insatisfeita, seu marido é péssimo na cama. Aninha diz que, diante disso, não suportaria mais viver com o escolhido, pois uma coisa é ela se queixar, já que sua queixa é solidária da dúvida, outra seria a confirmação. Embora suas queixas sejam frequentes, “longe dela se separar”. Já Gabriela pensou que seria muito bom ter a confirmação de mais alguém, pois assim tomaria as providências sem culpa, já que com o testemunho de mais alguém a mulher levaria vantagens na disputa pela guarda dos filhos e no valor da pensão, já que o juiz poderia se compadecer dela, julgando-a merecedora de uma indenização.

Concluindo que essa não era uma boa opção, Aninha, cansada que estava de buscar menino na escola, levar para o psicólogo, buscar do psicólogo, levar para a natação, buscar da natação, levar para aula de jazz, sugeriu uma nova troca, agora dos filhos. Troca, inicialmente inocente, já que tinha como objetivo trocar crianças pequenas, que dependem dos pais para tudo, com os filhos da Izabela, que já tem idade suficiente para não precisar dos cuidados da mãe o dia todo. Quando a proposta começou a parecer razoável, Marcele advertiu a colega de que os filhos da Izabela são lindos, empolgou-se tanto na descrição dos dotes físicos dos jovens que a amiga se viu ameaçada, decidindo, por si só, que era melhor não criar mais problemas. Era capaz de antecipar que enquanto ela entregava os filhos acompanhados de um pacote de fraldas, receberia os da amiga acompanhados de uma caixa de camisinhas.

Os celulares começaram a ficar mais inquietos e ansiosos, de um lado Aninha era questionada se teria ido a costureira buscar as calças do marido, do outro, Izabela era solicitada a dizer se ainda demoraria. Suzane era gentilmente lembrada de que deveria levar os filhos para a casa da avó. Embora o tempo urgia, a decisão de encerrar o encontro daquele dia só veio mesmo, quando ao celular, escutamos Amanda dizer:

_ Oi querido, então você fez as compras do supermercado. Que ótimo.

_ Há, você se lembrou dos meus pães integrais e do Activia, que lindo...

_Se estou me divertindo? Há muito...

_ Já tomaram banho? Estão dormindo? Você é demais, Não se preocupe, estou ótima. beijos...