De volta à Itabira, à Fundação Difusora de Ensino, necessário
é que se espane a memória. Estávamos lá, em plena adolescência, os hormônios latejando,
revirando os olhos, desquietando o corpo, desestabilizando os ouvidos e a aula
de português. No último horário, o pedido era para abrir o livro no último
capítulo. A página, a série, os demais colegas estão envoltos em névoa. Mas a
cena se destaca da bruma e aparece radiante com seus pontos de luz e incerteza.
Uma proposta de redação, o título: “Seu
animalzinho de estimação e sua família”.
Coloquei-me a pensar sobre o tema, embora não tivesse nenhuma
estimação pelos animais que em minha casa estavam por toda parte. Não gostava
de bichos, mas isso era o de menos, já me acostumara a cumprir as ordens do
professor sem questionar, e o que ficou desse dia serviu para reforçar a lição:
em boca fechada não entra mosquito. Se já não gostava de gatos e cachorros o
que diria dos mosquitos.
Foi então que o colega ao lado, muito gravemente, cheio de
sabedoria, levantou o dedo e manifestou:
_ Professora, tenho
uma dúvida!
A professora quis saber qual, ele não pestanejou.
_ O pronome possessivo
que antecede o substantivo família diz respeito à minha família ou à do meu
bichinho?
Diante disso, a professora mudou de cor e de expressão, sem
disfarçar a impaciência e o cansaço, retrucou.
_ É claro que é a sua
Pedro Bó.
O nome em questão é da
personagem criada por Chico Anísio, uma referência a alguém cujo QI não
ultrapassava a casa dos 70 pontos, numa escala que poderia ultrapassar os cem.
O menino, mal esperou a professora concluir sua resposta e
justificou sua dúvida.
_ Mas, professora ,
todo animal tem sua família.
Fez um pausa, a inteligência aguçada pela ofensa,
acrescentou:
_ Pois se não fosse assim, você não existiria.
Essa foi a aula de literatura da qual ainda me
recordo, me lembro da professora que nunca mais deixei de temer, da suspensão
do colega que passei a admirar e das falhas e equívocos da língua que nunca
mais deixei de observar.