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domingo, 2 de dezembro de 2012

As falhas da língua e da professora


De volta à Itabira, à Fundação Difusora de Ensino, necessário é que se espane a memória. Estávamos lá, em plena adolescência, os hormônios latejando, revirando os olhos, desquietando o corpo, desestabilizando os ouvidos e a aula de português. No último horário, o pedido era para abrir o livro no último capítulo. A página, a série, os demais colegas estão envoltos em névoa. Mas a cena se destaca da bruma e aparece radiante com seus pontos de luz e incerteza. Uma proposta de redação, o  título: “Seu animalzinho de estimação e sua família”.
Coloquei-me a pensar sobre o tema, embora não tivesse nenhuma estimação pelos animais que em minha casa estavam por toda parte. Não gostava de bichos, mas isso era o de menos, já me acostumara a cumprir as ordens do professor sem questionar, e o que ficou desse dia serviu para reforçar a lição: em boca fechada não entra mosquito. Se já não gostava de gatos e cachorros o que diria dos mosquitos.
Foi então que o colega ao lado, muito gravemente, cheio de sabedoria, levantou o dedo e manifestou:
 _ Professora, tenho uma dúvida!
A professora quis saber qual, ele não pestanejou.
 _ O pronome possessivo que antecede o substantivo família diz respeito à minha família ou à do meu bichinho?
Diante disso, a professora mudou de cor e de expressão, sem disfarçar a impaciência e o cansaço, retrucou.
 _ É claro que é a sua Pedro Bó.
 O nome em questão é da personagem criada por Chico Anísio, uma referência a alguém cujo QI não ultrapassava a casa dos 70 pontos, numa escala que poderia ultrapassar os cem.
O menino, mal esperou a professora concluir sua resposta e justificou sua dúvida.
 _ Mas, professora , todo animal tem sua família.
Fez um pausa, a inteligência aguçada pela ofensa, acrescentou:
_ Pois se não fosse assim, você não existiria.  
Essa foi a aula de literatura da qual ainda me recordo, me lembro da professora que nunca mais deixei de temer, da suspensão do colega que passei a admirar e das falhas e equívocos da língua que nunca mais deixei de observar.    

O aroma da infância escolar




Amarrotadas estão as minhas lembranças, mas o cheiro que sinto não é de naftalina, é do aroma dos cadernos e dos lápis de cores novos, depositados dentro da pasta preta enorme que levava morro acima. Dois passos para cima, um para baixo; uma hora para percorrer pouco menos de um km que separava minha casa da escola. A criançada vestida de saia ou short azul marinho de tergal conforme fosse menina ou menino, a blusa não fazia diferença, era igual, no bolso o distintivo que identificava o Major Lage, homem distinto que dava nome à escola estadual em que ingressei com seis anos e só me despedi aos 10 com muito pesar, com o sentimento de que outros iriam ocupar minha carteira e meu lugar no coração de D. Dulce.

Primeiro dia de aula e conheci a chamada. De início, o prazer e a novidade ao escutar meu nome na voz macia e doce de Dulce ocultou o fato que não demorou a saltar aos ouvidos. Entre envergonhada e confusa esperava por minha vez, a última. Comecei a perguntar pelo critério que teria me colocado ali naquela posição tão desprivilegiada. Permaneci sem resposta até que a solução chegou inesperadamente na figura gorducha de Vilma que acabara de ingressar na turma.   Foi então, que feliz, pude escutar, após o meu nome, a professora chamar por Vilma.  Minha alegria durou o tempo de reorganizar a lista dos alunos segundo uma ordem que eu desconhecia. Na segunda feira, a surpresa, eu era novamente a última. Não tive dúvida, eu era mesmo preterida por aquela doce figura. Resignada com a posição, estudei muito, pois imaginava que assim conseguiria melhor colocação, até que soube da existência de uma tal ordem do alfabeto, mais justa , dizem , que a ordem do afeto. Nessa ordem o y ocupava a última posição a que fui condenada por levar o nome da prima que minha mãe quis homenagear. Aí, já era tarde, já havia me transformado numa ótima aluna.

A segunda lição veio quando tentei colocar em palavras o cheiro de frutas maduras do quintal de minha casa.  Dulce leu, gostou e sugeriu o “aroma” ali onde eu sentia o “cheiro”, disse que ficava mais bonito. Fiquei perplexa. Pensei que fosse nome de fruta, entre tantas que no quintal meu pai plantara não havia essa, mas concordei, entendi que quando se escreve, mais vale a beleza que a realidade.