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domingo, 17 de outubro de 2010

É para acabar...

Amanda, Gabriela e Aninha passeavam pelo centro da cidade. Gente e mercadorias no  atacado e varejo, conversas a granel e ensacadas. Enquanto isso, um homem gritava em altos decibéis, superiores aos das conversas, gargalhadas e buzinas de carro. Mesmo à distância , seus gritos atingiram os ouvidos da Aninha como uma prece. Filtrando todos os ruídos, a voz lhe chegou doce e solitária.  
_ Vai acabar! Vai acabar !  
Aninha estendeu o pescoço por cima das inúmeras cabeças tentando visualizar o dono daquele anúncio fatídico. Desembaraçando-se das pessoas, ela foi cavando um túnel no meio da multidão. Sem se dar conta do que estava a fazer, foi guiando as amigas, em fila, como formigas cientes e diligentes de seu trabalho.
Gabriela e Amanda suspeitaram do que animava Aninha quando a escutaram perguntar ao dono daquela voz.
_ O que vai acabar ?
A princípio, pensaram que se tratava apenas de um comentário inocente, mas não, era uma pergunta que buscava ansiosa pela resposta. O que estava para acabar poderia alcançar seu objetivo antes mesmo que se soubesse o que era?
Questão de vida ou morte. Nesse assunto, acabar e morrer são semelhantes, é caso de urgência, pelo menos para Aninha que adquiriu não um, mas logo dois produtos que estavam para acabar.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Cora Coralina


Fim de semana prolongado, frente fria acalma os ânimos e o calor, preguiça...
Foi vitoriosa a vontade de escrever, não sobre qualquer coisa, mas sobre Cora Coralina. Seu senso poético já se percebe na escolha do pseudônimo que vem entregar ao mundo a encomenda feita a Ana Lins dos Guimarães Peixoto. Ana se renova em Cora, corada de coragem.
Passei horas saboreando a poesia de Cora Coralina, sua poesia tem o aconchego da cozinha, o gosto doce de abóbora, figo e laranja, tem a energia de comida feita com banha de porco e a simplicidade do cotidiano de uma mulher do centro-oeste brasileiro.
Aos 75 anos, quando a vida começa a se encolher, recolher-se a um canto de onde observar a vida dos que vem, Cora Carolina desabrocha como um botão que passou um tempo fechado em si, preparando seu colorido, seu aroma, guardando em segredo a beleza com que vai se apresentar ao mundo.
Mulher, brasileira, nascida no interior do país, no século passado. Todas as desculpas para passar em branco pela história e pela poesia, mas não, a vida não aceita desculpas nem justificativas, para não viver não há perdão, seja a vida curta ou longa.
Cora Coralina nos lembra que a vida exige intensidade. Vida intensa exige alma livre, solta no mundo. Exige que se abra mão de trazer a alma aprisionada e segura, ao abrigo das intempéries e emoções.
Não se deve ir ao Goiás de Cora de trem. Uma vez nos trilhos, não se pergunta mais aonde vai, o maquinista cuida de tudo.  Ao passageiro, cabe ver a vida pelas janelas, passando lenta por entre árvores, casinhas, igrejinhas e sociedadezinhas, sempre marcadas pela regularidade dos trilhos e pelo severo apito lembrando que a vida deve correr sempre igual, no mesmo ritmo e horário.
Dessa forma, para se ir ao encontro de Cora tem que se mudar o meio, tem que se recriar, se reinventar, se arriscar, senão fica-se no meio do caminho:  onde o olhar não é carícia,  o amor  não promove e o desejo  não sacia.
O encontro com a poesia dessa mulher é como as bênçãos do batismo, um ritual de renovação e salvação.





De sua cozinha, ela nos convida a saborear sua receita:

Saber viver.
Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto dura.
                                                       (Cora Coralina)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Branco no preto



Muito já se falou sobre o branco desnorteante de uma folha de papel diante dos olhos de alguém que se colocou ali com a intenção de escrever algo, mas sente como se o branco não fosse outro senão o reflexo interno da falta de algo importante para ser dito.
O aspirante a escritor descreve essa experiência, tentando renovar no seu dizer, o que já foi inúmeras vezes dito.
Escreve-se sobre a falta do que escrever, cumpre-se assim, com parte da promessa.
Pois esse branco me incita ao enfrentamento, confesso que resisti por uns instantes a escrever sobre isso, mas tal qual um bloqueio, tendo a acreditar que apenas derrotando-o pode se ir adiante.
Os leitores poderão ler essa confissão um pouco desconfiados, poderão dizer: “mal o blog começou e o fôlego arrefeceu”. A estes pessimistas digo calma, a princípio, trata-se de ser verdadeira, mesmo que essa verdade coloque em risco a admiração que pudesse angariar se me permitisse um pouco de maquiagem.
A maquiagem, aceito-a suave no rosto, a alma prefiro-a limpinha.