Fim de semana prolongado, frente fria acalma os ânimos e o calor, preguiça...
Foi vitoriosa a vontade de escrever, não sobre qualquer coisa, mas sobre Cora Coralina. Seu senso poético já se percebe na escolha do pseudônimo que vem entregar ao mundo a encomenda feita a Ana Lins dos Guimarães Peixoto. Ana se renova em Cora, corada de coragem.
Passei horas saboreando a poesia de Cora Coralina, sua poesia tem o aconchego da cozinha, o gosto doce de abóbora, figo e laranja, tem a energia de comida feita com banha de porco e a simplicidade do cotidiano de uma mulher do centro-oeste brasileiro.
Aos 75 anos, quando a vida começa a se encolher, recolher-se a um canto de onde observar a vida dos que vem, Cora Carolina desabrocha como um botão que passou um tempo fechado em si, preparando seu colorido, seu aroma, guardando em segredo a beleza com que vai se apresentar ao mundo.
Mulher, brasileira, nascida no interior do país, no século passado. Todas as desculpas para passar em branco pela história e pela poesia, mas não, a vida não aceita desculpas nem justificativas, para não viver não há perdão, seja a vida curta ou longa.
Cora Coralina nos lembra que a vida exige intensidade. Vida intensa exige alma livre, solta no mundo. Exige que se abra mão de trazer a alma aprisionada e segura, ao abrigo das intempéries e emoções.
Não se deve ir ao Goiás de Cora de trem. Uma vez nos trilhos, não se pergunta mais aonde vai, o maquinista cuida de tudo. Ao passageiro, cabe ver a vida pelas janelas, passando lenta por entre árvores, casinhas, igrejinhas e sociedadezinhas, sempre marcadas pela regularidade dos trilhos e pelo severo apito lembrando que a vida deve correr sempre igual, no mesmo ritmo e horário.
Dessa forma, para se ir ao encontro de Cora tem que se mudar o meio, tem que se recriar, se reinventar, se arriscar, senão fica-se no meio do caminho: onde o olhar não é carícia, o amor não promove e o desejo não sacia.
O encontro com a poesia dessa mulher é como as bênçãos do batismo, um ritual de renovação e salvação.
De sua cozinha, ela nos convida a saborear sua receita:
Saber viver.
Não sei… Se a vida é curta
Ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos
Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo,
É o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
Não seja nem curta,
Nem longa demais,
Mas que seja intensa,
Verdadeira, pura… Enquanto dura.
(Cora Coralina)