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terça-feira, 27 de setembro de 2011

FAITH (Fé)!

                             


                                



Faith é um cachorrinho que nasceu sem as patas dianteiras, que anda visitando as páginas da web. No vocabulário canino certamente não existe a palavra aleijado, mesmo porque não teria um significado para esse vocábulo. Faith, que em português podemos traduzir por Fé, esse cachorrinho ai das fotos, não liga para o que os outros pensam dele, não se importa se é mais elegante ou mais bonito que o seu vizinho ou que o seu amigo, está se lixando se alguém tem dó ou pena de sua condição.  Faith é único e incomparável.
Os limites que a natureza impôs a esse animal  não são pequenos,  a princípio pensamos que estaria condenado a ficar imóvel, já que a mobilização da espécie depende de quatro patas e não duas como lhe foi concedido.   Nós humanos sabemos disso, mas Faith, ignorante de sua condição de aleijado, tomou para si a tarefa de andar pelas ruas como se essa ação fosse a mais natural. Os limites físicos que nós vislumbramos para o cachorrinho não se confirmaram em sua existência. Ele desloca por toda a parte, e o modo como o faz torna-o ímpar e por isso admirável.

Se transportarmos esse acontecimento para a espécie humana, só em condições muito especiais teríamos resultado semelhante. Os limites físicos nesse caso esbarram com limites ainda maiores, os limites morais. A diferença é vivida pelo homem como signo de inferioridade e inutilidade. Se Faith assume sua diferença e a exibe feliz, é porque dela não tem nem orgulho nem vergonha, não se julga um privilegiado nem um desprezado, ignora que ter duas patas pudesse ser um limite, já que ele faz o que quer, ao seu modo, sem se comparar com os outros cães.

Entrar em competição com o outro poderia ser a desgraça de Faith assim como é a nossa.  Dizem que o homem é o lobo do homem, tamanha a crueldade com que trata seus semelhantes. 
A exigência de modelos é para mim a crueldade maior, claro que suportada pela boa intenção, a mesma de que o inferno está cheio.  Precisamos nos separar dos modelos, acreditá-los desnecessários e dispensáveis para nos inventarmos.  Nossa semelhança externa é um engano, se por termos dois braços e duas pernas, dois olhos e uma boca acreditamos que somos iguais, o modo como cada um  utiliza e usufrui do que tem  nos leva a crer que somos inteiramente diferentes uns dos outros.  
Sofremos de uma exigência de sermos iguais a ... , sendo que as reticências poderiam ser preenchidas por alguns ícones de nossa sociedade. Sempre buscando ser igual a. Por que não podemos apenas ser?
Se imaginarmos que a locomoção  humana fosse ao modo do vôo dos pássaros ou do nado dos peixes, alguém que nascesse com duas pernas sentir-se-ia um aleijado, coitado e desprezado. Assim, alguém que nascesse sem asas ou sem nadadeiras, mas provido de duas grandes e musculosas  pernas não saberia o que fazer com elas, recolhê-las-ia  como símbolo de sua insignificância  e vergonha, talvez passasse a vida na cadeira de rodas acreditando-se incapaz de locomover-se.  O mínimo olhar alheio seria para ele a confirmação de que é alvo de risos e zombaria.  Ignoraria eternamente o uso que Marílson Gomes dos Santos[1] fez dos seus belos par de pernas.





[1] Vencedor da maratona de São Silvestre 2010.

Um comentário:

  1. 7 meses, quase uma gestação, um parto prematuro...
    Cê voltou mais madura!Os temas mais essenciais, como vc mesma diria: coisas da maior importância!
    Bom ter vc de volta!!

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